9 - Toc Toc
Nesta edição recomendo o jogo No I'm Not a Human e esqueço de falar sobre agorafobia e paranóia
Boa noite.
Nos últimos dias tenho me divertido com duas atividades. A primeira delas é o jogo No I’m Not a Human, cuja versão completa lançaram mês passado na steam e tá muitíssimo em alta nos cafundó da internet. A segunda das atividades é fazer gelatina e comer.
No I’m Not a Human é um jogo de proteger a casa e conversar com as pessoas, só que metade das pessoas são do mal e quem não é do mal é feio pra caralho. Você não pode sair durante o dia porque o sol tá fritando as pessoas vivas, não pode deixar qualquer pessoa entrar porque ela pode papar teus colegas & não pode bater a porta na cara de todo mundo porque ninguém aguenta ficar sozinho numa sexta feira à noite.
E além disso tem o governo. Que contratou uma terceirizada pra bater de porta em porta deportando as pessoas.
Fora isso, você não tem que se preocupar com comida, nem com munição, nem com nada além da qualidade da sua companhia. Você se movimenta pelos corredores de uma casa tridimensional, e tudo fora desse espaço são telas bidimensionais com cenas, personagens e texto. Em nenhum momento da gameplay você deixa a sua casa.
Durante a noite, você recebe desconhecidos que batem na sua porta (ação que hoje em dia rende processo) e durante o dia você conversa com os seus novos colegas de quarto e realiza inspeções pra ver quem é do mal, seguindo as instruções da TV. Dentes brancos, unhas sujas, olhos vermelhos, irritações na pele, todos esses são sinais característicos de gente do mal — e todos podem TAMBÉM aparecer em humanos saudáveis que não são do mal, ou seja, a maioria das decisões serão tomadas seguindo seu próprio coração (e políticas higienistas).
OUSO dizer que talvez alguma coisa nesse jogo possa (ou não) remeter a certos elementos, eventos ou sensações que partam de alguma base na vida real. Não na MINHA vida real, que fique claro. Eu passo muito bem e nunca fui afetado por qualquer medo que seja.
A primeira vez em que ouvi citarem a figura da Casa Própria como o ícone máximo do neoliberalismo foi num vídeo de magic sobre uma coleção de terror. A casa seria esse pedaço de céu na terra, onde Indivíduos & Suas Famílias podem construir a própria história, livres do caos da cidade e do mal que anda pelas ruas. O problema é quando as portas, grades e paredes não são o suficiente pra conter o que vem de fora. Nesse joguinho o mal toma forma nas criaturas chamadas de Visitantes. Porque eles visitam.
Tirando algumas exceções, a maioria dos personagens que entram na sua casa têm uma chance aleatória de serem ou não Visitantes. O mesmo personagem que numa run anterior ficou com você até o final e te rendeu uma ceninha extra com conquista na steam, em outra run pode entrar na sua casa pela porta da frente e comer o cu de toda sua família. Os diálogos não mudam, seja quando você pede pra conversar, seja quando você ameaça com uma doze. A única coisa que pode mudar são as características inspecionáveis. Mas mesmo assim, o maconheiro vai SEMPRE ter o olho vermelho.
E mesmo entre os humanos, não existe a garantia de que você vai estar seguro. Tem muita gente mal intencionada por aí, e você só vai começar a entender o que tá acontecendo se escolher (e conseguir) manter estes até o final. Talvez mais estranho seja o caso oposto, quando você mantém Visitantes dentro de casa e acaba descobrindo neles algo de humano, seja o medo, a confusão ou cicatrizes de um passado nebuloso. Que nem na vida real.
E se você optar por não deixar ninguém entrar e ficar sozinho em casa assistindo TV e pedindo ifood, vai encontrar problemas piores ainda. Por exemplo, o cara que anda pelo bairro sem camisa batendo de porta em porta e matando as pessoas sozinha. É o ganha pão do rapaz e se tu estiver acompanhado ele vai só te encher o saco, mas se por algum motivo você decidir trancar a porta, fazer de sonso e viver sozinho ele entra de qualquer jeito pra te fazer companhia.
Não existe distância segura de ninguém nesse jogo, e há muito pouco a se fazer contra as ameaças que vêm de fora ou de dentro. Não é um jogo necessariamente difícil, mas é definitivamente frustrante cuidar de quem você quer na casa e conversar todo dia pra ver os queridos sendo mortos por uma visita indesejada, levados pela ICE apocalíptica no meio da noite ou simplesmente desaparecendo no meio de um pesadelo. Ainda assim, no meio de toda essa carnificina e esse mundo terrível de poste-mija-no-cachorro, a pior coisa que você pode fazer consigo mesmo é decidir ficar sozinho.
Não lembro da última vez que bati na porta de alguém sem ser convidado, mas me lembro da primeira. Quando eu tinha entre 3 e 4 anos (e era muito pequeninho) passei por uma situação complicada na chuva. Minha avó tava andando de carro no interior e achou que dava pra passar por cima de um riacho. Até ela perceber o erro a água já tava entrando pelas janelas e eu, naturalmente, me preparando pra morrer..
Depois que saímos do carro, minha mãe e avó bateram na porta da casa mais próxima pra pedir ajuda. Enquanto elas davam um jeito naquela bagunça, fui deixado na sala, enroladinho na coberta, todo encolhido e aceitando meu futuro como órfão.
Pra além do abraço da morte, a única coisa que eu me lembro desse episódio foram as palavras de conforto de uma mulher que eu não conhecia, e o cenário borrado de uma casa que nunca mais visitei, mas que no momento em que eu mais precisava esteve de portas abertas pra mim. Isso e umas notas de 50 reais que minha vó deixou pra secar.
Tenho enfrentado problemas, e muitos desses são familiares a todo mundo que segue vivo num sistema com dinâmicas cada vez mais individualizantes e anestesiantes de conexão e convivência. Num momento posso sair feliz de uma interação simples com um desconhecido no ônibus, já em outro fico irritado só de alguém que não me agrade o olhar me dirigir uma palavra na rua. Posso sentir saudade de dias em que passava mais tempo conversando com algum amigo, e ao mesmo tempo querer fumar rojão quando recebo ligação de um parente no meio da tarde.
Todo dia penso (e nisso não estou sozinho) sobre como queria viver uma vida espontânea e que não fosse mediada pela internet e as redes sociais, mas a conexão verdadeira me gera uma ansiedade aterrorizante. Quero voltar pra momentos em que a vida andava mais devagar, momentos em que eu conseguia ouvir meus próprios passos na rua, mas a cada dia que passa, mais os passos dos outros me doem nos ouvidos. Ainda tenho muita coisa pra aprender.
Por enquanto é só isso o que eu tenho pra falar, então agora peço que falem de volta pra mim. Tem bastante gente escrevendo nos últimos meses, entre essas pessoas estão muitos amigos meus e eu tô gostando bastante de ler. Agora, devo ficar bem quietinho e ouvir todo mundo.









fiquei completamente obcecada por esse jogo durante os últimos meses e foi refrescante ler sobre ele!! a parte de bater nas portas no final do texto me lembrou de uma coisa da infância que não tenho mais, que era simplesmente bater nas portas dos meus amigos para os chamar pra brincar. bons tempos!
texto lindo demais meu querido